Hoje é Dia do Psicólogo.

Eu poderia escrever alguma coisa bonita.

 

Talvez devesse. No meu tom, claro, mas bonitinha. Arrumadinha…

 

Alguma homenagem à profissão, uma fotografia suficientemente sóbria (e não, não colocaria alguma foto de minha formatura), duas ou três frases sobre escuta, acolhimento, transformação, cuidado e todas essas palavras que continuam verdadeiras, embora tenham sido repetidas tantas vezes que às vezes parecem chegar até nós já meio gastas. Todo aquele blá-blá-blá emotivo que fica bonitinho e garante likes.

 

Eu poderia… mas não. Hoje não.

 

Ontem uma menina de dezesseis anos morreu aqui na cidade e fica difícil escrever bonito depois disso.

 

Não vou usar a morte dela para construir uma explicação que eu não tenho. Não sei tudo o que aconteceu, não conheço tudo o que ela viveu e seria irresponsável transformar uma vida que não conheci numa tese conveniente sobre bullying, escola, família ou saúde mental.

 

Isso você encontra em qualquer lugar, a qualquer momento.

 

Uma morte não nos concede retrospectivamente o direito de inventar uma causa.

 

Mas ela deixa perguntas.

 

E algumas ficam particularmente difíceis de ignorar quando você trabalha justamente numa profissão que passa boa parte do tempo chegando depois.

 

Depois da primeira humilhação.

 

Depois dos anos tentando aguentar.

 

Depois da relação que apodreceu.

 

Depois do medo ter aprendido a se disfarçar de prudência.

 

Depois da família inteira ter se acostumado com uma violência porque “ele sempre foi assim”.

 

Depois da criança ter descoberto que pedir ajuda também pode render vergonha.

 

Depois de alguém passar tanto tempo dizendo “não é nada” que todo mundo resolveu acreditar.

 

Nós frequentemente recebemos pessoas quando alguma coisa já está pegando fogo há bastante tempo, e talvez por isso eu não esteja com muita disposição para comemoração hoje.

 

Às vezes nosso trabalho começa no lugar onde os outros pararam de olhar

 

Na prática, você pode passar cinquenta minutos sentado diante de alguém que construiu a própria prisão com um cuidado impressionante.

 

Não de uma vez.

 

Ninguém acorda numa terça-feira e decide passar os próximos vinte anos emparedando a própria vida.

 

É tijolo por tijolo.

 

Uma culpa que parecia razoável.

Um medo que naquele momento protegeu.

Uma frase repetida tantas vezes dentro de casa que deixou de parecer uma frase e virou uma espécie de lei natural.

Uma relação mantida três anos além do prazo de validade porque ir embora parecia mais assustador do que continuar apodrecendo ali.

 

Uma vida inteira tentando não decepcionar pessoas que, em alguns casos, já morreram e ainda assim continuam administrando decisões do túmulo.

 

E você senta diante disso.

Escuta.

Não para dizer que vai ficar tudo bem.

 

Essa promessa sempre me pareceu meio desonesta.

 

Às vezes não vai.

 

Não para ensinar alguém a pensar positivo enquanto a vida está objetivamente uma merda.

 

Não para encontrar uma interpretação bonita que transforme cada ferida numa oportunidade de crescimento, como se o sofrimento precisasse justificar o aluguel ocupando algum lugar na nossa história.

 

Tem coisa que não ensinou nada.

Só doeu.

 

Tem coisa que não precisa ser agradecida.

 

Tem coisa que talvez não tenha deixado ninguém mais forte.

 

Tem coisa que precisa simplesmente perder o direito de continuar governando.

 

Nosso trabalho, quando funciona, talvez seja um pouco menos elegante…

 

Entrar com uma lanterna onde alguém passou anos evitando olhar.

 

Mexer no que estava quieto.

 

Dar nome àquilo que funcionava melhor enquanto permanecia sem nome.

 

Encontrar uma frase repetida há vinte anos e perguntar quem, exatamente, decidiu que aquilo era verdade.

 

E, vez ou outra, fazer aquela pergunta filha da puta que estraga uma explicação perfeitamente confortável.

 

Não necessariamente para oferecer outra no lugar.

 

Às vezes basta estragar.

 

O problema é que psis também moram no escuro

 

Existe uma fantasia sobre nossa profissão, inclusive entre nós.

 

Como se estudar comportamento humano produzisse algum tipo de imunidade ao comportamento humano.

 

Não produz.

 

Psi repete padrão.

 

Foge.

Racionaliza.

Projeta.

Escolhe mal.

Volta para onde jurou que não voltaria.

Mantém relação que sabe que está fodida.

Bebe demais.

Fuma.

Se endivida.

Perde a paciência com o filho.

Briga com a pessoa que ama.

Passa uma hora ajudando alguém a enxergar uma contradição e, vinte minutos depois, defende uma contradição própria com uma sofisticação argumentativa quase admirável.

 

Conhecer o nome do mecanismo não impede o mecanismo de funcionar.

 

Às vezes só nos tornamos melhores em explicá-lo.

 

E talvez, só talvez eu desconfie um pouco da imagem do psi como alguém que encontrou uma saída e agora segura a porta para os outros.

 

Não encontrei.

 

A maioria de nós não encontrou porra nenhuma.

 

Escolhemos uma profissão em que passamos boa parte da vida observando esse mecanismo estranho, precário, contraditório e às vezes bastante cruel que transforma gente em gente, tentando compreender alguma coisa sem reduzir demais aquilo que está diante de nós.

 

E tentando não atrapalhar quando alguma coisa finalmente começa a se mover.

 

É pouco cinematográfico.

Mas é trabalho. Nosso trabalho. Meu trabalho.

 

Só que ontem morreu uma menina de dezesseis anos, e então o Dia do Psicólogo ganha outro gosto.

 

Porque enquanto escrevemos sobre escuta, existe gente que não consegue falar.

 

Enquanto ensinamos adolescentes a pedir ajuda, existem adolescentes tentando decidir se algum adulto é suficientemente seguro para ouvi-los.

 

Enquanto escolas fazem campanhas sobre convivência, existem corredores.

 

Grupos de mensagem.

Banheiros.

Intervalos.

Arquibancadas.

Perfis fechados.

Piadas que só são engraçadas para quem não está sendo destruído por elas.

 

E existe uma inquietação que me incomoda muito mais do que “como ninguém percebeu?”.

 

Será que ninguém percebeu?

 

Não estou falando especificamente da menina que morreu ontem. Repito: não conheço sua história o suficiente para atribuir causas ou responsabilidades.

 

Estou falando de nós.

 

Do jeito como adultos funcionam diante do sofrimento de crianças e adolescentes.

 

Existe uma distância enorme entre não perceber e perceber alguma coisa que ainda não parece grave o suficiente para justificar o incômodo de intervir.

 

Essa distância já engoliu muita gente.

 

A violência raramente começa parecendo violência

 

Começa pequena.

 

Essa é uma das razões pelas quais consegue sobreviver.

 

Uma piada.

Depois outra.

Um apelido.

Uma fotografia.

Uma exclusão cuidadosamente disfarçada de escolha espontânea.

Uma risada quando determinada pessoa entra na sala.

Um grupo do qual alguém vai sendo empurrado para fora sem que ninguém precise formalmente expulsá-lo.

Um comentário sobre corpo.

Roupa.

Voz.

Jeito.

Família.

Dinheiro.

Sexualidade.

Inteligência.

 

Qualquer diferença serve quando um grupo descobre que pode transformá-la em moeda social.

 

E quase sempre existe uma justificativa disponível.

 

“É brincadeira.”

“Eles são adolescentes.”

“Todo mundo passou por isso.”

“Não dá atenção.”

“Você precisa aprender a se defender.”

“Ele também provoca.”

“Ela é muito sensível.”

 

Essa última é especialmente eficiente quando não queremos discutir a crueldade, discutimos então a resistência da vítima.

 

Talvez ela devesse aguentar melhor.

Talvez devesse ignorar.

Talvez precisasse ser menos sensível.

Talvez o problema não seja exatamente aquilo que estão fazendo, mas o fato inconveniente de que aquilo está machucando alguém.

 

É uma maneira econômica de resolver a situação.

 

Há uma cena num filme antigo, Tempo de Matar, que nunca precisou de muita sutileza

 

O advogado conta a história do caso ao júri.

 

Não argumenta apenas sobre ela, ele narra.

 

Obriga aquelas pessoas a imaginarem.

 

A atravessarem mentalmente uma cena que até então podiam observar protegidas pela distância entre aquilo que aconteceu e aquilo que acontece conosco.

 

E então muda um único elemento da imagem.

 

A distância desaparece.

 

É uma cena construída justamente sobre a nossa capacidade de tolerar determinadas coisas e de como isso muda quando a vítima deixa de pertencer à confortável categoria dos outros.

 

Hoje eu faria uma alteração ainda mais simples.

 

Não imagine uma adolescente.

Isso continua abstrato demais.

 

Imagine sua filha.

Seu filho.

 

Dezesseis anos.

 

Você deixa na escola de manhã.

Uma escola boa.

Particular.

Cara.

Tradicional.

 

Muros.

Coordenação.

Professores.

Câmeras.

Regras.

 

Outras famílias pagando justamente pela expectativa de que aquele seja um lugar razoavelmente seguro para seus filhos passarem uma parte enorme da vida.

 

Agora imagine descobrir que, enquanto você acreditava que aquela estrutura significava proteção, alguma coisa estava acontecendo fora do alcance daquilo que os adultos decidiram enxergar.

 

Uma piada.

Outra.

Um grupo.

Um apelido.

Uma postagem.

Uma exclusão.

Uma humilhação.

Um vídeo.

Uma risada.

Alguém viu.

Alguém ouviu.

Alguém recebeu o print.

Alguém achou pesado.

Alguém pensou em contar.

Alguém resolveu que talvez fosse melhor não se meter.

 

E algum adulto, em algum momento, talvez tenha chamado aquilo de coisa de adolescente.

 

Agora imagine que é seu filho.

 

Ainda parece exagero intervir cedo?

 

Eu tenho dificuldade com nossa delicadeza diante da crueldade

 

Acredito na preocupação legítima em não transformar adolescentes que praticam bullying em monstros.

 

Concordo.

São adolescentes.

Também estão em formação.

 

Precisam de intervenção, responsabilização, compreensão e, dependendo do caso, ajuda.

 

O complexo é quando essa preocupação produz uma delicadeza tão grande com quem agride que sobra para quem está sendo agredido a tarefa de continuar suportando enquanto todos os adultos envolvidos conduzem uma belíssima experiência pedagógica.

 

Compreender não significa permitir.

 

Acolher quem agride não exige abandonar quem está sendo agredido.

 

Educar não significa retirar consequência.

 

E consequência não é sinônimo de vingança.

 

Essa confusão produz uma espécie de paralisia adulta em que ninguém quer ser autoritário, ninguém quer traumatizar, ninguém quer exagerar, ninguém quer acusar injustamente e, enquanto todo mundo demonstra enorme sofisticação ética, uma criança continua entrando na mesma sala no dia seguinte.

 

Bullying exige adulto.

Adulto de verdade.

 

Não alguém que faça cara séria e peça para os dois apertarem as mãos.

 

Exige limite.

Registro.

Acompanhamento.

Família chamada para dentro da conversa.

Escola disposta a descobrir o que acontece quando nenhum professor está olhando.

 

Colegas aprendendo que rir, compartilhar, filmar, incentivar e assistir não são posições completamente neutras.

 

Pais capazes de suportar uma possibilidade especialmente desagradável… talvez meu filho não seja apenas “brincalhão”, talvez esteja sendo cruel.

 

E talvez amá-lo, nesse momento, signifique justamente não protegê-lo da responsabilidade pelo que está fazendo.

 

Depois da tragédia, somos todos muito corajosos

 

Depois é fácil.

A violência já produziu uma consequência impossível de ignorar.

 

Aí aparece a fita preta.

A nota oficial.

A homenagem.

A roda de conversa.

A postagem sobre saúde mental.

O minuto de silêncio.

Os abraços no corredor.

 

Não estou dizendo que essas coisas sejam falsas.

 

O luto é real.

O choque é real.

O sofrimento das comunidades atingidas é real.

 

Mas… o que nós fazemos enquanto ainda não aconteceu nada grande o suficiente para justificar uma nota oficial?

 

O que fazemos quando é “só” um apelido?

Quando é “só” exclusão?

Quando o adolescente continua indo para a escola?

Quando as notas ainda estão boas?

Quando ele ainda ri em casa?

Quando ninguém apareceu com uma marca visível?

Quando intervir dá trabalho?

Quando a família do outro aluno é conhecida?

Quando existe medo de reclamação?

Quando admitir o problema pode arranhar a imagem da instituição?

 

É antes que nossa coragem costuma ficar cara.

 

Depois todo mundo compra.

 

É isso o que tenho para dizer no Dia do Psicólogo…

 

Não parabéns.

Não exatamente.

 

Um incômodo…

Nossa profissão gosta da lanterna.

 

Eu também gosto.

 

Entramos no escuro.

Procuramos o que não foi visto.

Escutamos aquilo que demorou anos para conseguir virar frase.

 

Tentamos encontrar alguma coisa antes que ela precise virar sintoma, ruptura, violência ou desespero para ser levada a sério.

 

Mas a lanterna não pode pertencer apenas ao consultório.

 

Tem pai que precisa acender uma.

Professor.

Coordenador.

Amigo.

Colega.

Psicólogo escolar.

Diretor.

 

Quem percebeu a mudança.

Quem recebeu a mensagem estranha.

Quem viu a piada passar do ponto.

Quem ouviu “eu não quero ir amanhã” pela quinta vez.

 

Nem tudo será sinal de uma tragédia.

 

Ainda bem.

 

Nem toda tristeza é depressão.

Nem todo conflito é bullying.

Nem todo silêncio esconde alguma coisa terrível.

 

Precisamos continuar capazes de fazer essas distinções, justamente para não transformar qualquer sofrimento humano numa emergência.

 

Assim aprendemos a diferenciar e não a patologizar tudo e se acostumar a não olhar.

 

Essa diferença importa.

 

Hoje é 27 de agosto.

Dia do Psicólogo.

 

Eu poderia terminar parabenizando os colegas que ainda conseguem permanecer diante do humano sem precisar transformá-lo imediatamente em diagnóstico, frase de Instagram ou história de superação.

 

E parabéns a eles.

A nós.

 

Mas depois de ontem isso me parece insuficiente.

 

Então eu prefiro deixar duas perguntas para quem trabalha ouvindo aquilo que os outros frequentemente não conseguem ouvir.

 

A terapia está em dia?

E a supervisão?

 

E uma terceira, que hoje me interessa mais…

 

quando alguém acender uma lanterna daqui a alguns anos e olhar para aquilo que estava acontecendo agora, nós vamos aparecer onde?

 

Tentando interromper?

Tentando entender?

Olhando para outro lado?

Ou explicando, depois que tudo acabou, que ninguém poderia imaginar?

 

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