Hoje eu me irritei com uma colher.

Não é uma metáfora.

Era uma colher mesmo.

Na pia.

 

E eu olhei para aquela filha da puta com uma indignação absolutamente incompatível com aquilo que ela havia feito contra mim.

 

Nada.

Era só uma colher.

 

Já lidei com coisas objetivamente piores sem alterar a pressão arterial, mas ali estava eu, alguns segundos da minha existência sendo consumidos por um talher sujo, pensando coisas que, se verbalizadas, fariam parecer que aquela colher vinha sabotando minha família há três gerações.

 

Claro que não era a colher.

Esse é justamente o problema.

Quase nunca é a colher.

 

A gente acorda achando que começou um dia novo porque dormiu algumas horas e o calendário teve a gentileza de trocar de número durante a madrugada.

 

O corpo nem sempre recebeu o memorando.

 

Você levanta carregando um resto de ontem, uma preocupação que ainda não ganhou nome, alguma coisa que precisa resolver até sexta, uma conversa que ficou atravessada, o dinheiro que talvez dê, talvez não, uma mensagem que você não queria responder e uma pequena dor em algum lugar que ainda não decidiu se merece preocupação.

 

Nada grave.

Esse “nada grave” é importante.

Quase tudo que vai fodendo um dia comum não é grave.

Se fosse grave, talvez você parasse.

 

A magia tá justamente nas coisas pequenas o suficiente para não justificar uma pausa e irritantes o bastante para arrancar um pedacinho seu.

 

Uma por vez.

Você procura a chave e não encontra.

Dois.

Alguém demora para sair quando você já está atrasado.

Três.

O trânsito.

Quatro.

Uma mensagem começando com “rapidinho”.

Cinco.

Uma senha que você jurava que era aquela.

Seis.

O aplicativo resolve atualizar.

Sete.

Alguém pergunta uma coisa que você já respondeu.

Oito.

Outra pessoa faz barulho demais.

Nove.

Você percebe que esqueceu de fazer alguma coisa.

Dez.

Colher.

 

E pronto.

A colher paga.

 

É uma injustiça, evidentemente, mas a colher não tem advogado.

 

É uma matemática meio filha da puta nisso… a gente costuma avaliar irritação pelo tamanho daquilo que acabou de acontecer.

 

É um erro. Um erro ferrado.

O contexto precisa entrar na conta.

 

Talvez alguém faça uma pergunta absolutamente razoável às oito da manhã e você responda normalmente.

A mesma pergunta às 18h43 pode soar como uma tentativa deliberada de destruir o pouco que restou da sua dignidade.

 

A pergunta não mudou.

Você mudou.

Ou, mais precisamente, você foi sendo gasto.

 

Isso acontece de maneira tão banal que quase passa despercebido.

 

Cada pequena interrupção exige alguma coisa.

Cada decisão.

Cada ruído.

Cada atraso.

Cada “você pode só…”.

Cada necessidade alheia que encontra você antes que você consiga terminar de lidar com a própria.

 

Você vai filtrando.

É isso que fazemos boa parte do dia.

Filtramos.

 

Não responde aquilo.

Não fala desse jeito.

Não manda essa pessoa tomar no cu.

Não buzina.

Não discute.

Não transforma uma reunião numa ocorrência policial.

Não diga para o sujeito exatamente o que você pensa sobre a capacidade cognitiva dele.

 

Respira.

Sorri.

“Imagina.”

“Sem problema.”

“Claro.”

“Pode deixar.”

 

Adulto funcional é uma criatura com um excelente sistema de contenção de danos.

Nós, e sim, me incluo,não passamos o dia fazendo tudo o que sentimos vontade de fazer.

 

Ainda bem.

Civilização depende bastante disso.

 

O que ferra é que o filtro também cansa.

E quando ele cansa, não necessariamente acontece alguma grande explosão cinematográfica.

 

Às vezes você só começa a responder mais curto.

Fecha uma porta com uns quinze por cento a mais de força.

Suspira ostensivamente.

Perde a paciência com uma embalagem.

Xinga um objeto inanimado.

Começa a considerar determinados seres humanos uma afronta pessoal.

 

Nada que justifique chamar a polícia.

Só pequenas rachaduras no verniz.

 

A raiva raramente chega sozinha

Tem dias em que eu não estou com raiva de ninguém especificamente.

Estou com raiva do contexto.

 

É diferente.

Não existe um culpado satisfatório.

E isso é uma merda porque seria muito mais fácil se existisse.

 

Você poderia apontar.

Foi você.

Pronto.

Mas não.

É terça-feira.

Tem conta.

Tem prazo.

Tem gente precisando de você.

Tem coisa quebrando.

Tem alguma coisa que precisa ser comprada num mês em que já se comprou coisa demais.

Tem trabalho que você precisa fazer para pagar coisas que precisa pagar para conseguir continuar trabalhando.

Tem responsabilidade.

Tem família.

Tem futuro.

Tem o presente pedindo dinheiro.

Tem uma pequena lista invisível rodando no fundo da cabeça enquanto você tenta assistir alguma coisa e fingir que está descansando.

 

E tem você no meio.

Tentando não ser um filho da puta com quem não tem culpa.

 

Essa talvez seja uma das tarefas menos glamourosas da vida adulta.

Não despejar o contexto em quem estiver mais perto.

 

Contexto não tem rosto.

Seu filho tem.

Sua mulher tem.

Seu marido tem.

Seu amigo tem.

O garçom tem.

A pessoa do atendimento tem.

O sujeito dirigindo devagar na sua frente tem, embora em determinados momentos isso seja difícil de acreditar…

 

A raiva precisa pousar em algum lugar.

E gente cansada oferece aeroporto.

 

“De zero a dez, quanto você está irritado?”

Não sei.

Depende.

Com quê?

Talvez eu esteja dois com você.

Cinco com uma coisa que aconteceu de manhã.

Sete com dinheiro.

Três com trabalho.

Oito com uma situação que não consigo resolver.

Quatro comigo mesmo por não ter resolvido.

Um com a colher.

 

Só que tudo isso está acontecendo dentro do mesmo sujeito. E se acumulando ao longo do dia.

 

Então a colher entra numa sala onde já tem umas vinte pessoas gritando.

Ela não sabe.

Você sabe pouco também.

Só percebe que está dez.

E como a última coisa que aconteceu foi alguém deixar uma colher na pia, seu cérebro faz aquela associação preguiçosa… estou puto por causa disso.

 

Não está.

Isso só foi a última moeda colocada numa máquina que já estava inclinando perigosamente.

 

Bora olhar menos para o tamanho da última irritação e mais para o somatório.

 

O último acontecimento frequentemente não explica a reação, explica só o momento em que ela aconteceu.

 

E não, eu não quero me tornar uma pessoa melhor

 

Existe uma obrigação estranha de transformar qualquer percepção sobre si mesmo numa jornada de aprimoramento.

 

Você percebe que está irritado?

Ótimo.

Agora precisa aprender alguma coisa.

Desenvolver inteligência emocional.

Regular melhor.

Comunicar com assertividade.

Transformar a raiva.

Encontrar equilíbrio.

Ser mais presente.

Mais consciente.

Mais paciente.

Mais alguma porra.

 

Eu entendo.

De verdade.

 

Mas às vezes eu não quero transformar meu cansaço em currículo.

Não quero que cada defeito encontrado em mim inaugure um projeto de reforma.

Não quero acordar amanhã 2% mais evoluído.

Não quero ser minha própria startup.

 

Tem dia em que eu não quero me tornar uma pessoa melhor.

Quero apenas não me tornar uma pessoa pior.

Já seria excelente.

 

Quero atravessar uma terça-feira sem fazer alguém pagar por uma conta que não é dele.

Quero perceber quando estou chegando no nove antes que uma colher precise descobrir.

Quero conseguir dizer “hoje eu estou sem margem” sem transformar isso numa tese, num diagnóstico ou numa busca espiritual.

 

Nem tudo precisa ser transcendido.

Algumas coisas precisam apenas ser administradas com o mínimo possível de estrago.

 

Minha ambição anda bastante vulgar…

Eu queria dizer que desejo uma vida plena.

Uma existência alinhada aos meus valores.

Presença.

Propósito.

Integração.

Essas palavras ficam ótimas em bio, mas, depois de determinado horário, minhas ambições ficam consideravelmente menos nobres.

 

Eu quero pagar minhas contas sem precisar abrir o aplicativo do banco fazendo negociação diplomática com entidades superiores.

 

Quero algum conforto.

Não estou falando de iate.

Quero ligar alguma coisa sem imediatamente calcular quanto aquilo vai acrescentar na conta de energia.

 

Quero comprar uma coisa necessária sem precisar deslocar três outras necessidades para o mês seguinte.

 

Quero trabalhar sem transformar todo descanso em culpa e todo prazer em planilha.

 

Quero chegar em casa e, pelo menos algumas vezes, não ter mais nenhuma decisão importante para tomar.

 

Quero torcer para não estar criando um psicopata, porque criar uma criança é uma experiência em que você passa boa parte do tempo tentando ensinar alguém a ser um ser humano minimamente decente enquanto suspeita, silenciosamente, que alguma escolha banal feita numa quarta-feira pode estar construindo o vilão do terceiro ato.

 

Você põe limite.

Será que fui duro?

Você flexibiliza.

Será que estou criando um tirano?

Você conversa.

Será que falei demais?

Você perde a paciência.

Pronto.

Trauma.

 

Talvez aos trinta e sete ele esteja numa terapia contando exatamente dessa terça-feira enquanto alguém anota alguma coisa sobre o pai.

 

Espero que pelo menos ele conte direito.

Não quero ser iluminado.

Não quero dominar a arte de viver.

Não quero terminar meus dias sentado diante do pôr do sol tendo finalmente compreendido o significado secreto da existência.

 

Minha régua é mais baixa e talvez mais honesta.

 

Quero chegar ao fim do dia sem ter sido desnecessariamente cruel.

Quero que as pessoas que moram comigo não precisem calcular meu humor antes de entrar num cômodo.

Quero continuar conseguindo rir de alguma coisa depois das seis.

Quero que o cansaço não vire personalidade.

Que a irritação não vire método.

Que o “estou só cansado” não se transforme, daqui a alguns anos, na explicação oficial para eu ter me tornado alguém insuportável.

 

E quero pagar minhas contas.

Todas.

 

Ter algum conforto.

Torcer para não estar criando um psicopata.

E, quando virar o mês, depois de aluguel, escola, mercado, luz, internet, cartão, alguma coisa quebrada, alguma despesa que surgiu do esgoto e tudo aquilo que custa dinheiro simplesmente porque você teve a péssima ideia de continuar existindo… eu gostaria que sobrasse um pouco.

 

Não para investir em mim.

Não para uma experiência transformadora.

Não para um curso.

Não para começar uma reserva destinada à construção da minha melhor versão.

 

Pizza.

Quero dinheiro para pedir uma pizza.

Grande.

Talvez com borda.

Sentar com quem eu gosto, abrir a caixa ainda quente e passar algumas horas sem precisar melhorar absolutamente nada.

 

Amanhã a gente vê.

Hoje o expediente acabou.

O resto, infelizmente, não.

Mas a pizza chegou.

 

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