Tem coisa que você consegue esconder muito bem enquanto ela continua sendo apenas pensamento, e pensamento é bicho ligeiro.

Na cabeça, tudo é meio escorregadio.

Você pensa uma merda e imediatamente pensa outra coisa sobre a merda que acabou de pensar. Corrige uma palavra que ninguém ouviu. Melhora sua intenção depois do fato consumado. Lembra de uma conversa antiga e, sem perceber direito quando fez isso, troca uma frase de lugar, acrescenta um silêncio que talvez nem tenha existido, muda o tom de voz do outro, melhora o seu.

A cabeça permite essas pequenas falsificações.

Talvez precise delas.

Você ensaia uma conversa que nunca aconteceu enquanto toma banho. Roteiriza a coisa toda igual a barraco das antigas nivelas das nive… Dá a resposta perfeita três horas depois. Ganha uma discussão imaginária dirigindo. Perde outra deitado na cama, quando já deveria estar dormindo, e começa tudo de novo porque agora encontrou um argumento melhor.

Ninguém registra.

Nenhuma ata é lavrada.

Na manhã seguinte, se for necessário, você pode contar outra versão até para si mesmo.

A memória ajuda bastante nesse serviço.

O orgulho também.

O medo é praticamente funcionário do mês.

A gente vai mexendo nas coisas por dentro até que elas voltem a caber na história que conseguimos suportar sobre quem somos, o que fizemos, o que fizeram conosco e, principalmente, por que continuamos fazendo algumas coisas que juramos não entender.

No papel fica mais difícil.

Não impossível.

Você também pode mentir escrevendo.

Pode escrever uma página inteira de mentira, aliás. Pode construir uma defesa impecável, escolher palavras bonitas, fazer de si mesmo um personagem profundamente injustiçado, lúcido, incompreendido e cheio de boas razões.

Só que… existe um problema.

A mentira também fica escrita.

E amanhã você pode encontrá-la.

Essa é uma das coisas mais inconvenientes e fantásticas da escrita, ela deixa cadáver.

A frase que parecia absolutamente razoável às 23h17 continua ali às sete da manhã, quando você já não está tão inflamado, tão triste, tão puto ou tão interessado em convencer alguém, mesmo que esse alguém seja você.

Ela não se atualiza sozinha.

Não melhora durante a madrugada.

Não acrescenta contexto para proteger seu orgulho.

Fica ali.

A frase.

Do jeito que saiu.

E às vezes basta reler para sentir aquele pequeno desconforto de encontrar uma versão sua que você preferia que tivesse ido embora junto com o estado de espírito que a produziu.

Não foi.

Você escreveu.

Agora existe prova.

Talvez, e só talvez, seja por isso que tanta gente queira escrever e não escreva

Existe um pequeno comércio em torno da vontade de escrever.

Cadernos bonitos.

Aplicativos.

Canetas.

Métodos.

Promessas de escrever todos os dias.

Vídeos sobre como começar um diário.

Tutoriais sobre journaling.

Cadernos com perguntas prontas para você descobrir quem é, de preferência em quinze minutos antes do café.

Nada disso é necessariamente ruim.

Às vezes um caderno bonito é só um caderno bonito.

Já parou para pensar em como podemos passar um tempo considerável preparando o lugar onde vamos escrever sem escrever uma linha que realmente importe?!

Escolher o caderno.

Escolher a caneta.

Decidir se será pela manhã ou antes de dormir.

Pesquisar se é melhor escrever à mão ou digitar.

Criar uma pasta.

Dar nome à pasta.

Trocar o nome porque ficou meio ridículo.

Encontrar um método novo.

Começar na segunda-feira.

Na segunda seguinte.

Talvez no primeiro dia do mês seja melhor.

Parece disciplina, tem gosto de motivação e cheiro de propósito…

Nem sempre é.

Às vezes é só uma maneira bastante sofisticada de continuar rondando a porta sem entrar.

Escrever de verdade faz você poder chegar perto demais…

E não estou falando de escrever bem.

Esse é outro problema.

Estou falando daquele momento em que você começa querendo registrar uma coisa simples e, quatro parágrafos depois, percebe que está escrevendo sobre outra.

Você senta para reclamar do trabalho e acaba escrevendo sobre medo.

Começa falando de alguém que te irrita e encontra inveja no meio.

Vai escrever sobre cansaço e percebe que continua oferecendo pedaços do seu dia para coisas que diz odiar.

Começa tentando explicar por que ainda não tomou determinada decisão e produz uma tese inteira, cheia de contexto, circunstâncias, obstáculos, timing, responsabilidade, prudência e consequências.

Tudo verdade.

Talvez.

Aí você relê.

E no meio daquela engenharia toda aparece uma frase bem menor… eu estou com medo.

Pronto.

Que merda.

Era mais elegante antes.

A escrita pessoal ganhou uma decoração estranha.

Café ao lado do caderno.

Luz entrando pela janela.

Uma planta ligeiramente fora de foco.

Caneta bonita.

Talvez uma vela, caso a pessoa esteja realmente comprometida com a própria profundidade.

No alto da página, alguma coisa sobre gratidão…

É ou não é uma versão muito bem domesticada do ato de escrever?! Quase uma pequena cerimônia privada de higiene emocional… você senta, organiza os pensamentos, nomeia os sentimentos, agradece por três coisas, fecha o caderno e vai viver um pouco mais consciente.

Pode funcionar.

Só não é tudo.

Escrever também pode ser uma atividade bastante feia.

Pode ser mesquinho.

Repetitivo.

Infantil.

Contraditório.

Você pode escrever coisas que jamais publicaria, jamais mandaria para alguém e talvez não dissesse em voz alta nem se estivesse sozinho.

Pode descobrir que está com inveja de alguém de quem gosta.

Que ficou satisfeito quando uma pessoa fracassou.

Que quer ser reconhecido por algo que insiste em chamar de “desapego”.

Que aquela sua preocupação muito nobre com determinada situação tem uma quantidade constrangedora de controle misturada nela.

Ou nada disso.

Às vezes você só escreve porcaria mesmo.

Uma página inteira sem chegar a lugar nenhum.

Isso também faz parte.

O problema começa quando você exige que tudo o que sai da sua mão tenha imediatamente alguma profundidade, alguma utilidade, alguma lição escondida esperando para ser descoberta.

Nem toda página precisa revelar um segredo ancestral sobre sua existência.

Tem página que é entulho.

Só que até entulho diz alguma coisa sobre o que andou sendo demolido.

Pensar e escrever não são exatamente a mesma coisa

Pensamento não espera a frase terminar.

Uma lembrança puxa outra, que encontra uma sensação, que esbarra numa imagem, que produz uma resposta para uma conversa de seis anos atrás, que lembra uma conta que precisa ser paga amanhã, que por algum motivo faz você pensar na sua mãe, depois no trabalho, depois numa música.

Tudo isso pode acontecer em segundos.

A escrita é mais lenta.

Ela obriga aquela multidão a passar por uma porta estreita.

Uma palavra.

Depois outra.

Depois outra.

Você precisa escolher alguma coisa para colocar primeiro, mesmo que não perceba que está escolhendo. Precisa chamar aquilo por algum nome. Precisa decidir se escreve “raiva”, “irritação”, “ódio”, “cansaço”, “saco cheio” ou simplesmente “não aguento mais essa merda”.

Parece detalhe.

Não é exatamente detalhe.

As palavras que escolhemos vão deixando marcas, principalmente quando escrevemos mais de uma vez.

Um texto isolado pode ser qualquer coisa.

Depois de algum tempo, porém, começam a aparecer certos hábitos.

Você percebe que determinada pessoa entra em quase tudo o que escreve.

Que certas situações mudam, mas sua conclusão permanece estranhamente parecida.

Que você usa “sempre” demais.

Ou “nunca”.

Que existe uma quantidade suspeita de “preciso”.

Que “não tive escolha” aparece com uma frequência desconfortável.

Que você está há meses escrevendo variações de “quando isso passar”.

Passa uma coisa.

Chega outra.

E lá está você novamente esperando a vida começar depois de alguma coisa.

É aí que o texto deixa de ser apenas aquilo que você quis dizer e começa a existir também aquilo que você não percebeu que estava repetindo.

A repetição costuma aparecer antes da explicação

Talvez você tenha escrito sobre trabalho na segunda.

Relacionamento na quarta.

Família no sábado.

Dinheiro duas semanas depois.

Assuntos diferentes.

Pessoas diferentes.

Contextos diferentes.

Só que alguma coisa no texto continua voltando.

Você tenta dar conta.

Você espera demais antes de falar.

Você acumula.

Você explica o comportamento dos outros.

Você oferece mais uma chance.

Você se irrita.

Explode ou desaparece.

Sente culpa.

Promete fazer diferente.

Algum tempo depois escreve outro texto sobre outra situação completamente diferente.

E lá está a mesma arquitetura usando móveis novos.

Isso é mais interessante do que procurar uma frase bonita sobre si mesmo.

E por que as histórias continuam terminando no mesmo cômodo?

A escrita não responde isso automaticamente.

Não existe essa mágica.

Você pode escrever durante vinte anos e continuar evitando exatamente o mesmo assunto durante vinte anos, só ficando cada vez melhor em construir frases ao redor dele.

Escrever não garante coragem.

Muito menos lucidez.

Às vezes só melhora a caligrafia da mentira.

Mas existe uma vantagem difícil de ignorar.

Depois que alguma coisa foi escrita, você pode olhar novamente.

E olhar novamente muda o jogo.

O texto também fabrica personagem

Existe outra sujeira aqui.

Quando escrevemos sobre nós mesmos, raramente somos apenas testemunhas.

Também somos advogados.

Diretores.

Editores.

Às vezes assessoria de imprensa.

Mesmo num diário que ninguém verá, existe uma versão de nós tentando organizar a narrativa.

Você pode aparecer como o sujeito que aguenta tudo.

Como quem sempre tenta conversar.

Como aquele que se sacrifica.

Como o racional cercado de gente descontrolada.

Como o incompreendido.

Como quem não precisa de ninguém.

Como aquele que só queria paz e, por uma coincidência estatisticamente impressionante, está sempre cercado de guerra.

Não precisa ser mentira deliberada.

Essa é justamente a parte complicada.

Talvez você acredite profundamente nessa versão, e por isso escrever uma vez não basta para desmontá-la.

Só que… personagens têm vícios.

Repetem falas.

Entram em cena do mesmo jeito.

Precisam que determinados outros personagens existam para que sua função continue fazendo sentido.

O salvador precisa de alguém quebrado.

O injustiçado precisa de culpados.

O forte precisa encontrar gente que não aguenta.

O indispensável precisa viver cercado de incêndios.

No meio de páginas escritas em dias diferentes, essas pequenas necessidades narrativas podem começar a aparecer.

Não porque você decidiu confessá-las.

Porque repetiu.

E repetição deixa marca.

Tem coisa que aparece justamente quando você tenta não escrever

Às vezes o mais interessante de uma página não está nela.

Está no buraco.

Você escreve detalhadamente sobre uma discussão e pula uma frase específica.

Conta tudo o que a pessoa fez, mas passa rápido demais pelo que você respondeu.

Descreve uma decisão durante três páginas e quase não toca no que perderia se realmente a tomasse.

Escreve sobre uma pessoa constantemente, mas nunca escreve o nome.

Chega perto de determinado assunto e muda de tema.

Fica engraçado.

Intelectual.

Poético.

De repente começa a explicar conceitos.

Qualquer coisa serve.

Só não aquilo.

Não é preciso transformar cada silêncio em mistério.

Às vezes você esqueceu.

Às vezes não tinha nada para dizer.

Mas quando o desvio se repete, vale olhar para ele.

Porque censura nem sempre chega com uma placa dizendo PROIBIDO ENTRAR.

Às vezes ela chega como preguiça.

Como falta de assunto.

Como “isso não é importante”.

Como vontade de parar justamente naquela página.

Como uma necessidade súbita e absolutamente inadiável de verificar uma notificação no celular.

Você levanta para pegar água.

Volta amanhã.

Amanhã escreve sobre outra coisa.

O papel fica com aquele pequeno terreno baldio no meio.

O problema de reler

Escrever é uma coisa.

Reler é outra.

Enquanto você escreve, ainda está dentro da história. Existe velocidade, irritação, prazer, vergonha, desejo de terminar, necessidade de explicar.

Dias depois, algumas dessas coisas perderam temperatura.

A frase continua.

E certas frases envelhecem muito mal.

Você encontra certezas que já não parecem tão certas.

Encontra indignações que agora parecem um pouco teatrais.

Encontra promessas que fez pela quinta vez.

Encontra alguém que você jurava ter superado ocupando dezessete páginas.

Encontra uma versão sua dizendo “dessa vez vai ser diferente” e percebe, com certo constrangimento, que já leu aquilo antes.

Na sua própria letra.

Talvez até com a mesma caneta.

Esse encontro é desagradável porque a memória costuma nos conceder pequenas anistias.

O registro, não.

Ele não precisa acusar.

Só precisa continuar existindo.

Então escrever serve para quê?

Escrevemos por muitos motivos.

Para contar.

Para inventar.

Para registrar.

Para lembrar.

Para esquecer um pouco.

Para mandar alguma coisa para alguém.

Para não mandar.

Para organizar uma ideia.

Para produzir uma ideia.

Para deixar uma coisa existir fora da cabeça por alguns minutos.

Não é necessário transformar tudo isso em técnica.

Muito menos chamar qualquer rabisco num caderno de processo profundo de autoconhecimento.

Às vezes escrever é só escrever.

E já é bastante.

Quando você escreve alguma coisa e deixa aquilo existir fora de você, cria uma distância mínima entre quem viveu e quem observa.

Não uma distância limpa.

Nem neutra.

Só alguns centímetros de papel.

O suficiente, talvez, para perceber uma palavra que voltou.

Uma justificativa velha usando roupa nova.

Uma ausência.

Uma contradição.

Uma frase que parece não combinar com o resto.

Um personagem que você insiste em interpretar mesmo quando ninguém mais está assistindo.

Uma história que você jurava ser inédita e que, olhando melhor, já aconteceu quatro vezes.

A escrita não precisa curar nada para ser valiosa.

Não precisa resolver.

Não precisa fechar ferida.

Não precisa produzir uma conclusão bonita no final da página.

Pensamento evapora.

A fala se mistura com a memória.

A intenção ganha versões.

O texto fica.

Você pode voltar depois.

Mexer nele.

Discordar.

Ter vergonha.

Rir da própria dramaticidade.

Encontrar uma coisa que ainda dói.

Perceber que outra já não significa quase nada.

Ou descobrir, com uma irritação bastante específica, que continua escrevendo sobre a mesma merda há anos.

É aí que escrever começa a parecer menos com “colocar para fora”.

Essa expressão sempre me pareceu limpa demais, como se houvesse dentro da gente um recipiente cheio de sentimentos e bastasse abrir uma torneirinha emocional para esvaziá-lo sobre o papel.

Não.

Às vezes escrever faz justamente o contrário.

Você coloca uma coisa para fora e, só depois de vê-la ali, percebe o tamanho do espaço que ela ocupava dentro.

Talvez por isso algumas páginas deem alívio, e outras deem vontade de rasgar.

Eu desconfiaria um pouco mais das segundas.

Porque escrever também é sentar diante da pequena cena do crime que você chama de vida, acender uma luz ruim, dessas que não favorecem ninguém, e olhar para o que ficou espalhado.

Tem versão sua andando por ali.

Tem justificativa.

Tem medo vestido de prudência.

Tem silêncio.

Tem frase bonita tentando distrair.

Tem coisa que você provavelmente preferiria varrer antes que alguém chegasse.

Ninguém precisa chegar.

O problema é outro.

Você chegou.

E agora suas digitais estão por toda parte.

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